sábado, agosto 02, 2008

Visto/Expectativas

Bem, depois de mais de dois meses desde a última postagem, o blog está repleto de teias de aranha e tem dois ou três ratos e, ignorando a poeira que só quem mora em Vila Velha (e respira a pó de minério) conhece, decidi dar uma faxina e, bem, fazer um outro post.

Dois meses podem parecer pouco, mas não são, não para uma intercambista. Tirei meu visto há exatamente um mês, e vou contar como foi, atendendo a pedidos (pode ser que agora ninguém mais queira saber de nada) mas não tõ nem aí, vou contar e ponto final.

Bem, num ônibus de excursão junto com um monte de gente com as mesmas intenções que a minha (más intenções hahaha), cheguei ao consulado às 6h (mal dava pra ver o sol) e entrei na fila como qualquer outro submetido ao gentil governo americano (tenho que lisonjeá-los, estou indo pra lá mesmo). Bem, fiquei na fila um tempão e, embora meu agendamento fosse às oito (como todo mundo), fui atendida só uma hora e meia depois.

Lá na sala de espera na área dos guichês, eu observava cada guichê:

O número 1: todo mundo saía de cara feia
O número 2: a mulher chegou atrasada
O número 3: o velhinho de óculos mais velho que minha bisa que só olhava pro computador
O número 4: não dava pra ver, era uma sala
O número 5: a mulher demorava demais e perguntava tudo em inglês, dava pra ouvir
O número 6: não tinha.
O número 7: não dava pra ver direito pelo meu ângulo

A minha senha indica o guichê número 5.

Eu - Bom dia!
Cônsul - "Bououm" dia! Visto de estudante?
Eu - É, visto de estudante.
C (em um ingles ultra-mega-rápido) - Programa de High school?
E - Sim (respondendo em ingles).
C (sempre em inglês à veloc. da luz) - Gwmwkwdmcomifjuwnihwydrlgpdsccwefd?
E (não entendi) - O quê?
C (mais devagar, mas ainda rápido) - Pra onde você vai?
E - Estou indo para Wisconsin (dei um sorriso)
C - Ah, sim Wisconsin. Você já comprou um casaco? (falou em inglês tirando piada)
E - Yeah... (dei outro sorriso, uii, cheia de sorrisos perante a cônsul) nossa, lá é muito frio (sempre em inglês).
C - É muito frio mesmo. Por que você escolheu o programa de High School?
E - Bem, eu participei de um Concurso de Bolsas de Intercâmbio de High School em março, e eu fiquei em primeiro lugar no ES e em segundo no Brasil.
C - Oh, sério? Que bom! (abriu um sorriso e continuou em ingles) Que tipo de concurso?
E - Bem, a World Study oferece todos os anos. Você conhece a World Study?
Ela balançou a cabeça afirmativamente, enquanto carimbava meu papel, assinava e entregava o outro papel pra mim. (Yes, eu tinha conseguido!)
C (ainda em ingles) - Seu visto foi concedido. Agora, pague essa taxa no caixa atrás de você e volte aqui.
E - Ah, sim obrigada (obrigada, obrigada, obrigada!).
C - You're welcome.

Paguei e e foi rapidinho, nem doeu. Mas eu estava muito nervosa e nem tinha dormido à noite no ônibus. Mas deu certo. E é isso que importa, não?




Sabe, às vezes pensando à respeito do intercâmbio, fico meio em baixa. Caramba, por que não pensei profundamente sobre ele antes? Cara, é uma loucura. A mais pura loucura. Julgava loucos os que praticam esportes radicais (embora eu tenha uma pontinha de inveja), que mal têm a certeza que voltarão intactos da aventura, se é que voltarão (!). E eu sou o que em topar (e ansiar e desejar) com uma aventura dessas? A única diferença entre eu e o doido que se joga da terceira ponte amarrado em uma corda é que eu sei que vou voltar, e ele deve ter suas dúvidas. A pergunta, porém, é: como vou voltar? A única resposta que eu encontro é que isso vai ser meramente fruto das minhas escolhas. E somente delas.

A verdade é que sonho de intercambista (sim, aquele que nos é vendido num programa de High School) acaba logo que a host family chega e a data se aproxima. Sabe, aquela propaganda com imagens de estudantes na escola, "viva com uma família americana" e blá blá blá? Aquilo nos ilude, nos deixa cheia de expectativas. Se teria irmão, irmã, criança, se seria sozinha, se eu moraria na Flórida ou New Hampshire, sabe, tantas possibilidades! Mas quando o lugar, a família chega, é como se ela nos limitasse as possibilidades, nos dissesse: "Você vai ter x irmãos, vai morar no lugar y, vai estudar na escola tal..." e todas aquelas infinitas opções se limitassem ao que foi escolhido não por você, mas para você (pelos outros!).

Pode parecer que não, mas a verdade é que adorei a minha host family: minha mom quer saber o prato que eu gosto pra fazer, minha sister diz q eu sou linda (!) e faz contagem regressiva no msn, além de td, eles me convidaram pra ir pra North Carolina com eles. Não nego que seja uma família legal, aconchegante, animada. Mas parece que quando a informação da sua família chega, aquele "encanto" intercambista acaba, por mais que ela seja massa. Quando a host family se concretiza, a realidade nos é imposta e daí ela se faz notar (e nos dá um pouco de noção do que aconteceu e do que ainda virá a acontecer).

Vou deixar para trás minha família, que, sendo direta, é tudo pra mim. Minha irmã me diz todo dia "Ah, Veri, faz uma boneca e põe no seu lugar. Veri, eu não quero que você vá!" E ela chora 50% das vezes, o que me corta o coração. Fora os meus pais, que dão sorrisos animadores mas eu sei que não é isso que eles querem fazer.

Pensar sobre tudo isso me deixa down pra caramba, pensando se realmente eu deveria ter feito essa escolha pra mim, se deveria ter me arriscado a tentar, sem garantia alguma, a procurar o fim do arco-íris. Mas sabe o que eu acho? Que cara, um dia eu fiz uma escolha, e se ela já está feita, e um dia eu assinei um contrato com sorriso nos lábios e corri atrás de mil coisas pra que essa escolha virasse realidade com perfeição, não é agora que eu vou desanimar. Penso que, se o fim do arco-íris está sem graça, sem sal, eu mesma vou temperá-lo, vou animá-lo, e vou fá-lo-ei ser um fim do arco-íris inesquecível!

Se o pote que era pra ter moedas de ouro estiver vazio, por que não enchê-lo com meu próprio tesouro?

E é nisso que eu espero.

(Leitor, se você leu essa chatice aaté o final, você merece um prêmio. Pena que eu não vou lhe dar nada. Mas merecer você merece.)

5 de agosto está aí!

Beijos,